Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.
Por não ter mais espaço, plantava pequenas plantas no banheiro. Mesmo com o pouco lugar para tomar banho e fazer suas necessidades, ficava alegre quando uma plantinha durava mais de uma semana e,às vezes, chegava a dar alguma flor. Olhava aquela florzinha e dava até vontade de apertar como criança fofa ou bochecha de mulher bonita.
Dormia num colchonete meio por opção, meio por querer. Sua cama de taquara dava saudades nas noites de verão. Quando os prédios não desperdiçavam nada além de calor, ele deitava pelado sobre aquele colchonete mais duro que o próprio chão e dormia bem. Sonhava com seus bichos de antes, com o cachorro, com o gato que enroscava nas suas pernas quando estava tomando café na cozinha. Aquele café doce e ralo que despertava os sentidos de quem já tinha calos por todo o corpo. Aquelas horas da manhã que insistiam em ser bonitas por menor número de gentes que a contemplassem ; menina que se troca bonita tendo só o espelho por testemunha; seres que de tanto presenciar a criação passam a fazer parte do criador também. Oiê, boi! Pra junto dos meus eu vou, gritou ele e desapareceu como piche no asfalto e nem seus rastros os bichos sentem mais na sua terra.
Quando o suor castigava sua nuca espessa, procurava uma bica perdida no meio daquele concreto todo. Encontrava torneiras disputadas por mendigos e taxistas e, sem presas, fechava a boca seca subindo no seu transporte. Rezava as rezas que aprendera com quem viveu no mato. Seu assovio era uma ave Maria e seu trabalhar um pai nosso.
Nas poucas tardes ociosas, pegava sua viola desafinada e sem uma corda. Se fechava entre portas e janelas no apartamento. Antes pra se proteger do barulho externo e menos para não castigar os vizinhos. Cantava qualquer coisa. Qualquer coisa fazia chorar aquele coração morto de saudades.
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.
Lucas,
ResponderExcluirvocê consegue trabalhar com a descrição de maneira que seu texto continue fluido e bem gostoso de ler. Isso é algo difícil de se conseguir, segundo meu ponto de vista.Há também o uso de orações invertidas,imprimindo nele uma marca que me parece sua (já tive o privilégio de ler outros textos seus), além do uso preciso dos adjetivos, por exemplo, que contribuem para que o leitor enxergue as cenas descritas, percebendo a sensibilidade existente no ar.
Obrigada pela contribuição!